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segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Vergonhas

Me peguei no ato despretensioso, distraído,  de levar a mão ao rosto e contorcer o corpo na tentativa de negar ou esquecer que um fato ocorreu.

Quisera eu, que sou tímida, que algumas memórias ficassem apenas comigo. Mas, por decorrência de um fato lógico e real, que é, não estar sozinha no mundo e ainda viver em um mundo cheio de camêras  e  trocas de informações rápidas, carrego vergonhas comigo e todas elas tem registros. Podem ser facilmente rastreadas.

Mesmo que as vergonhas não se mostrem, não se provem (talvez não deveriam ser chamadas de vergonhas, talvez sejam mais um constrangimento, ou um pequeno constrangimento),  elas estão sempre registradas na memória de outras pessoas, nas fotos, nos vídeos e sendo relembradas nas conversas em família.

Minhas vergonhas são relacionadas à infância, às vezes que eu bati o carro ( e sempre houve alguém pra rir), quando eu rolei nas dunas de areia e caí no rio (isso não foi na infância, na verdade, não completou um ano que isso ocorreu) e algumas outras. Está tudo registrado em videos, fotos e memórias alheias que eu não quero ver ou ouvir sobre.

Algumas vergonhas eu  me lembro vagamente, outras ainda estão cicatrizando e outras são apenas engraçadas. Quando me peguei nesse ato de negação do fato ocorrido, ou apenas uma tentativa involuntária de negação, cheguei a conclusão que as minhas vergonhas sempre ocorreram durante um processo de adaptação e aprendizagem.

Talvez, isso explique porque me sinto tão pressionada durante um processo de aprendizagem. A vergonha é um sentimento que marca e  são lembranças que quando menos se espera, elas retornam. Mas o fato é que, a vergonha só se potencializa se houver platéia. Concluo, somos muito cruéis uns com os outros.

Como se não bastasse passarmos as nossas próprias vergonhas, eu e muitas outras pessoas ainda sofremos de vergonha alheia. Essa vergonha alheia está muito relacionada ao um ponto de vista muito egoista do mundo, há uma limitação de ser. O que nos dá o direito de sentir vergonha de um ato alheio?

Sinto que minhas  vergonhas não tem conexão com arrependimentos, as vejo mais como pegadas do meu caminho de superação. E isto me consola... não completamente, mas consola!




Élida Regina Pereira




segunda-feira, 20 de maio de 2013

Coisas e amor de irmãs

Eu e ela brincávamos de maneiras diversas. Me lembro claramente de sua humildade em tudo. Todas as brincadeiras que eu propunha, ela aceitava. Era doce e sempre demonstrava seu amor por mim. Eu... já era o oposto, nada humilde. Tudo deveria ser como eu queria, senão... Eu batia, gritava, chorava. 
É estranho pensar nessas coisas. É como se eu estivesse agora, me observando na infância, da sala da minha casa. Não gosto do que observo. Vejo as dificuldades que tinha pra expressar sentimentos bons. Sempre que eu brigava com ela, me sentia mal. Sabia que não merecia minhas crueldades. Ela não esquece que me juntei com umas amiguinhas e ficamos falando baixinho porque a menina disse que ela era fofoqueira. Eu deveria ter defendido, mas não conseguia ver o todo. Simplesmente, entrei na infantilidade. Afinal, eu era uma criança.  Ela nunca esqueceu todas as vezes que eu a bati. E eu também não esqueci a primeira vez que ela revidou a minha crueldade, me dando um chute bem dado na canela.  Lembro de nós nos defendermos. Ninguém podia mexer com ela que eu me manifestava. Uma vez eu até escrevi uma cartinha para responder as provocações, mas não deu muito certo porque a pessoa levou a carta pra minha mãe. Aí já viu! Resultado: punição para as duas. Se minha mãe se manifestasse contra nós, nos uníamos contra ela, não que isso adiantasse alguma coisa. Tudo confidenciávamos e se fosse preciso também nos chantageávamos. 
— Se você não fizer isso pra mim, eu vou contar pra o pai o que você fez!
Essas frases sempre existiam entrem nós. Sem contar, que eu a traumatizei por assusta-la no escuro dizendo:
— Olha a bruxa! kkkkkkkkk - Ela chorava... 
Era ela que sempre me ouvia, me abraçava quando eu chorava de tristeza, me entendia e dizia que eu devia ser cientista. A vida foi passando, e cada uma se moldando a sua maneira, cada uma em suas fases e escolhas, mas continuamos a ser confidentes, amigas, companheiras. Hoje, entre nós, há as recordações e  a aceitação da outra exatamente como ela é. 
Se eu tivesse que escolher uma irmã, com certeza escolheria você. Você veio pra minha vida sem escolha. E dizem por aí, que as amigas são irmãs que escolhemos. Você é a irmã que escolhi como amiga. Eu sei, que eu posso contar e confiar em você pra tudo! Eu Te Amo Demais!

 À Elaneida


Élida Regina