sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Sobre a vida


Este corpo que minha alma abriga, as vezes, sente como se estivesse se equilibrando num terremoto. Um dos movimentos da vida, que sem piedade destrói estruturas e chãos. E nessa devastação deixada, um movimento lento e aparentemente mágico, reconstrói o chão e o equilibrio diante do tremor se  transforma em um elegante chacoalhar... É a vida em meu corpo dançando!

Élida Regina Pereira

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Minha individualidade na coletividade

Tenho pensado constantemente que vida realmente vivida é movimento, com coragem, garra, com fracasso, mas também recomeços. As vezes precisamos de reclusão pra nossa alma transparecer, as vezes precisamos de sol. É maravilhoso ver progresso em si mesmo, daqueles que a gente percebe quando mesmo nos momentos difíceis, você sabe que fez a escolha certa, que nada, realmente nada, substitui o aprendizado. Óbvio, aprendizado vem em diversas formas, mas minha paixão é aprender vivendo. Tenho observado histórias, as vezes, a vida alheia mesmo, num ângulo bem superficial, mas que, dependendo do tempo de observação, é possível ver as escolhas e os resultados. A vida tem me ensinado o respeito às histórias, escolhas e opiniões alheias. Tem me mostrado que evolução só se compara consigo mesmo. Cheguei à fase da satisfação. Satisfação por estar aprendendo a ser persistente no que quero pra mim e por a vida estar me presenteando por isso. Quem me conheceu na intimidade, viu uma pessoa que não existe mais. Passei por uma reconstrução e segui construindo. Já disse, há tempos não sofro da ausência de mim mesma e isso é maravilhoso. Decidi, não ser uma pessoa intelectualizada ou acadêmica, mas nada tira de mim a observação do mundo, as indignações, o apreço pelo conhecimento, pela leitura e teorias. Mas a beleza do conhecimento vem da simplicidade, do se fazer entender, de se ver livre da pretensão de impressionar. É 'engraçado' me perceber envelhecendo e me abrindo ao novo. São tantos detalhes me mostrando todos os dias minhas potencialidades na individualidade e na coletividade e minha facilidade de adaptação, que não existe forma de eu não me sentir satisfeita com a minha existência. Tenho vivido com leveza, tenho tido paz.

Élida Regina Pereira 


Dedicatória

Se a imagem que fiz pra você parece torta,                        
Talvez seja porque minha alma é torta!
Só queria que tivesse um pouco de mim contigo.
Prometo. É um  antigo ligo.
Guardo estrelinha,
um sibólico e simples objeto,
cheio de afeto, naquela caixinha.
A caixinha azul do armário,
Nosso relicário...
Guarda Estrelinha,
nossa alma na caixinha!

Élida Regina Pereira


Texto publicado no projeto Palavra é Arte - Poesia 100 ed.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Invisibilidade

Parece que nada marcou de fato.
Os projetos inacabados,
os sonhos apenas sonhados...
Eu, que sou escuridão por dentro,
transparecida pelo nada...
Fui apagada!

Sou um pontinho preto
Na escuridão!

Fui grandiosa, fui atriz,
fui rainha...
O tempo se foi sem companhia.
E eu, nem  pude rever meus 'eus'.

As grandiosidades eram EU!
Onde eu me encontro?
Naquele baú escuro,
no quarto escuro da minha vó?

Sou uma anomalia
nessa estranha atmosfera!

Tive atos de bravura e coragem,
me orgulhei e quando olhei pra trás...
Eu vi...O nada!
Nem mesmo solidão!

Sou um pontinho preto
Na escuridão.

Amei, odiei, sonhei, acordei, protestei,
compadeci, agi, desisti, calei, obedeci,
respondi, contrariei, argumentei, errei,
acertei, aprendi, aprendi e aprendi.
E tudo isso ficou,
ficou nessa escuridão interna...
Que eu e eu, nem me encontro,
me sinto por perto,
mas não me vejo...
não me veem.

Eu me via explosão constante,
mas na verdade,
sou implosão cortante!
Sou  imensa, quase infinita,
Sou cosmopolita.

Como sou possível?
Estou eu em transe?

Acordo,
caminho pela rua,
vejo pessoas,
a vida segue...

Um trabalho maçante,
uma vida mesquinha,
um egoismo marcante...
Uma pessoa vazia?
Não, eu Não!

É hora de dormir.
As imagens de humanos desumanos
me pertubam, me assustam...
Mas...
'Bora' sonhar que a realidade
não mudou não!

Sou um pontinho preto
na escuridão.

Élida Regina Pereira

Texto  publicado  no  projeto  Palavra  é Arte - Poesia 100 ed.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Lá fora

Amor,
Lá fora há guerra...
Onde pisaremos se não há chão que não
seja minado?
Em todos os lugares há corpos assolados.

Nós?!
Ficaremos nesse eterno flutuar,
aproveitaremos pra dançar
Nessa sensação gostosa de deslumbrar
O apaziguar.

Amor,
O mundo é triste.
Não se lance nessa monótona e
gélida  solidão.
Permita-se o acompanhar.
Amor nesse mundo gélido,
É contrariar.

Juntos,
Acreditaremos que,
O chão se 'recomporá',
Tudo passará...

E assim...
Dançaremos numa valsa circular...
Veremos o sol raiar.
Depois...
Deixaremos tudo pra depois.

Élida Regina Pereira

Texto publicado no projeto Palavra é Arte- Poesia 100 ed.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Nossa Casa, Nossa Ruptura














Quem vai arrumar essa bagunça?
Quem vai aspirar o pó dessa ruptura?
Quem vai lavar as fronhas sujas
e o lençol com marcas de uma vida a dois?
Quem arrumará essa mala
meio pronta, meio rampa,
meio vão entre nós dois?
Quem decidirá caminhar
ao redor da casa e lembrará
que um dia não houve cortina,
escondendo nós dois?
Quem vai colorir essas paredes?

Quantas vezes,
minhas unhas foram pintadas...
e eu nem saí de casa!
Quantos dias as janelas ficaram fechadas!

Não devia haver solidão...
Quanta vida disperdiçada!!

(Me dei conta de que no fone tem musica tocando...
Corro pra ouvir )

Música não pode ser disperdiçada.
Vida também não!

Por isso...

Tenho tido sonos longos,
Tenho andado despreocupada...
Tenho apreciado meu progresso...
Café Espresso!

Tenho alimentado a vontade,
Tenho mudado!

Tenho monologado:
Que eu não aguarde a promessa de morte,
pra ver beleza no mundo!!!
Que minha pele não seja assolada por mais dor que
essa interna, pra eu me sentir confortada!

Na vida...
Os movimentos imprecisos,
A desarmonia e o desritmo...
Não deu dança!!
Mas deu música!

Vida...
não pode ser disperdiçada!!


Élida Regina Pereira

Texto publicado no projeto palavra é arte -poesia 100 ed.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Eu engoli uma pedra

Eu engoli uma pedra a cada descoberta.
Quando me mostraram a separação entre o norte e o sul do Sudão.
Quando eu vi jornalistas presos por exercer sua profissão.
Quando eu percebi que no Brasil a vida está por um fio.
Quando Senti as dificuldades da peregrinação.

Eu engoli uma pedra...
Quando me mostraram as vitímas da religião.
Quando percebi que acreditar é em vão.
Quando vi homossexuais assasinados por nada.
Quando percebi que a beleza da criança é usurpada.

Eu engoli uma pedra...
Quando percebi que ser mulher padronizada conduz a mediocridade.
Quando fui insultada pela minha nacionalidade.
Quando vi conspirações políticas destruindo vidas, sonhos e pesquisas.
Quando vi o palhaço morrer triste.

Eu engoli uma pedra...
Quando senti o racismo na pele.
Quando descobri a história da colonização.
Quando percebi que por motivos banais se faz uma guerra.
Quando fui chamada de ‘vagabunda periférica’.

Eu engoli uma pedra...
Quando vi os conflitos na faixa de Gaza.
Quando descobri a situação do povo haitiano.
Quando percebi que o mundo não me daria chance.
Quando fui traida enquanto amava.

Eu engoli uma pedra...
Quando senti que a saudade tem efeito venenoso.
Quando percebi que a vida é campo perigoso.
Quando vi mulheres violentadas e assassinadas.
Quando percebi que estava errada.

Eu engoli muitas pedras 
e EM pedras não nascem flores!
Mas, ENTRE elas… 
Nascem rosas!

Élida Regina Pereira


Texto publicado no projeto palavra é arte - poesia 100 ed.