Me despertei pelo desejo de retribuir. Eu que não sou amante da cozinha, decidi deixar o sofá e alegrar o meu, o nosso dia, cozinhando.
A príncipio fui tomada pela raiva de todas as vezes, quando tenho a súbita vontade de cozinhar e encontro apenas carne moída no setor de 'misturas' da geladeira. Mas ela passou em segundos e comecei a cozinhar com carinho.
Cortei cebola bem picadinha, depois pimentão e amassei o alho com o pilão. Enquanto isso o feijão cozinhava. Fazia tudo com uma alegria cantante ao som da panela de pressão.
Nas panelas ao lado, cozinhei o arroz e ovos para incrementar a salada. Não parei não! Descasquei os ovos, torrei o pão, ralei queijo... Lembrei de cortar o bacon! Fritei. Ficou pronta então, a salada ceasar.
Continuei. Terminei a carne acrescentando o coentro. Temperei o feijão... Tudo pronto! Quando se está fora do Brasil, a simplicidade da comida brasileira se transforma em evento.
A mesa posta... Anunciei. -Está pronto! Era a oferta do meu amor a quem tanto me oferta. Momentos felizes, na maioria das vezes não são obtidos na ociosidade. Cozinhar é um ato de amor!
"E no mistério solitário da penugem, vê-se a vida correndo, parada, como se não existisse chegada..."
Djavan/ Orlando Morais
Daqui de fora, tenho apreciado a beleza de uma forma muita mais terna. Algumas coisas são melhores apreciadas quando não há interferências. Aqui, minha maior companheira tem sido a caneta. E a palavra de ordem que tem me acompanhado é equilíbrio. Há um tempo a questão que faço pra mim mesma, é: Como equilibrar essas pernas curtas entre um lado e outro do mundo? Há um tempo, também descobri que levo a vida muito a sério e gosto disso!
Já tem um ano que cheguei desse lado do mundo e as mudanças internas são imensuráveis. A sensação de um retorno ao básico, é inevitável. E ao mesmo tempo é visível a transformação. É uma sensação de perda e ganho numa mesma jogada. Como é difícil lidar com a saudade da família, muitas vezes, com a solidão que nos afeta e a necessidade de aprender tudo de novo e de novo. Essas vivências me fizeram regressar dez anos da minha vida e me fizeram envelhecer dez.
Aprendi a amar a minha língua, a minha cultura, a minha pessoal história. Quando se mergulha em um mundo totalmente desconhecido e totalmente 'cru', o esforço terá sempre que ser maior para se adaptar. E quando mergulhamos em outro idioma e outra cultura é importante não deixarmos nossas raízes de fora. Então, tenho tentado o equilíbrio.
Do lado de cá, tenho selecionado o que quero ver e ouvir daí. Tenho arquivado em minha memória belezas brasileiras, que eu gostaria que o mundo todo entendesse a língua portuguesa e tivesse a mesma sensação que tenho ao apreciá-las. Tenho administrado meus dias, com todas as dificuldades, pra equilibrar as duas línguas, as duas culturas, os dois mundos.
O tempo aqui passa numa velocidade, que por mais que eu tenha tempo pra fazer tudo, nunca é o suficiente pra ver o progresso que eu gostaria. O tempo de aprendizagem parece que não caminha com o tempo real. A paz que existe nesse lugar nem sempre me penetra. Por mais que tenho tido uma paz que nunca tive antes, sou uma alma aflita.
Tenho aprendido, que preciso apreciar as belezas do mundo. A vida vai passando e cada dia nos despedimos dela...
''na tarde distante... ferrugem ou nada."
Há dias tenho apreciado essa música que deu nome ao texto e me faz refletir sobre vida e beleza. Me vejo na mesma posição do Dominguinhos diante dessa música... meus olhos enchem de lágrimas e aquela sensação indescritível de estar viva para apreciar essa obra.
Me deparei com a espontaneidade
dos amantes quando olhei pela janela.
Caminhavam em passos rápidos
E num abrupto ato...
Pararam,
Se beijaram,
Caminharam...
Amantes...
Eles são tantos,
as vezes, usam turbantes!
Fui laçada pelo mistério do palhaço.
Ele surgiu caminhando no centro histórico,
As crianças gritaram alvoroçadas,
As moças também!
Tudo nele é mistério pra mim. O rosto colorido...
Ele é bonito, e pelo jeito,
Distingido ele é também.
Ele não fala,
Não tenta fazer ninguém rir...
E todos ali...
Não gargalham, mas sorri!
Esse palhaço é envolto em mistério...
O que faz ele rir?
Será que ele chora de dor?
Se ele chora de dor...
Queria eu, ser artista assim,
Sorrir com dor, pra fazer outro rir.
Será que ele gosta de poesia?
Ele me ofereceu um coração.
Mas não era exatamente o dele,
(Talvez fosse um pedacinho)
Era um coração bem pequenininho,
Em papel dobradinho,
Num plástico em forma de saquinho.
Quando abri...
As letrinhas,
bonitinhas, diziam:
Gentileza.
Ri...
Sorri!
Élida Regina Pereira
Texto publicado no projeto palavra é arte- poesia 100 ed.
Me peguei no ato despretensioso, distraído, de levar a mão ao rosto e contorcer o corpo na tentativa de negar ou esquecer que um fato ocorreu.
Quisera eu, que sou tímida, que algumas memórias ficassem apenas comigo. Mas, por decorrência de um fato lógico e real, que é, não estar sozinha no mundo e ainda viver em um mundo cheio de camêras e trocas de informações rápidas, carrego vergonhas comigo e todas elas tem registros. Podem ser facilmente rastreadas.
Mesmo que as vergonhas não se mostrem, não se provem (talvez não deveriam ser chamadas de vergonhas, talvez sejam mais um constrangimento, ou um pequeno constrangimento), elas estão sempre registradas na memória de outras pessoas, nas fotos, nos vídeos e sendo relembradas nas conversas em família.
Minhas vergonhas são relacionadas à infância, às vezes que eu bati o carro ( e sempre houve alguém pra rir), quando eu rolei nas dunas de areia e caí no rio (isso não foi na infância, na verdade, não completou um ano que isso ocorreu) e algumas outras. Está tudo registrado em videos, fotos e memórias alheias que eu não quero ver ou ouvir sobre.
Algumas vergonhas eu me lembro vagamente, outras ainda estão cicatrizando e outras são apenas engraçadas. Quando me peguei nesse ato de negação do fato ocorrido, ou apenas uma tentativa involuntária de negação, cheguei a conclusão que as minhas vergonhas sempre ocorreram durante um processo de adaptação e aprendizagem.
Talvez, isso explique porque me sinto tão pressionada durante um processo de aprendizagem. A vergonha é um sentimento que marca e são lembranças que quando menos se espera, elas retornam. Mas o fato é que, a vergonha só se potencializa se houver platéia. Concluo, somos muito cruéis uns com os outros.
Como se não bastasse passarmos as nossas próprias vergonhas, eu e muitas outras pessoas ainda sofremos de vergonha alheia. Essa vergonha alheia está muito relacionada ao um ponto de vista muito egoista do mundo, há uma limitação de ser. O que nos dá o direito de sentir vergonha de um ato alheio?
Sinto que minhas vergonhas não tem conexão com arrependimentos, as vejo mais como pegadas do meu caminho de superação. E isto me consola... não completamente, mas consola!
Gostaria de ser capaz de descrever um simples momento de alegria. Esses momentos tão raros e rápidos. Mas, não sou dotada de talento pra esse lado mais fugaz da vida.
Outro dia, sonhei que estava correndo, correndo de uma forma que a realidade jamais me permitiria! O sonho me presenteou com essa sensação e quando acordei, ainda cansada da corrida, faltou palavras pra descrever sensações tão realísticas . Uma sensação tão única, que continuará única.
Me vejo agora, com a inocência de uma menininha, reivindicando:
-- Não devia nos faltar palavras diante do mundo!
Pelo menos, diante do meu mundo. Mas falta!
Queria descrever quando me sinto pisoteando meu medo e o sorriso em meu rosto quando imagino ele no chão. Quando caminho sobre pedras e todas elas tem meu rosto. Quando atravesso a porta e encaro com coragem o não.
As palavras vem até mim, quando a sensação é longa. As alegrias são curtas, e mesmo que não sejam, elas parecem curtas. Preciso de um tempo longo pra digerir emoções, mas alegrias são fugazes!
Queria descrever alegrias... É só um desejo.
Me tranquilizo, porque nem sempre é preciso palavras. Nem tudo no mundo... é palavra.